Aos 89 anos, Padre Francisco Canindé dos Santos deixa um legado de fé, educação, comunicação e compromisso social. Missa de Exéquias foi presidida por Dom Francisco de Sales, seguida de sepultamento na Capela do Instituto Padre Ibiapina.

A Diocese de Santa Luzia de Mossoró se despediu, no dia 1º de novembro de 2026, do Padre Francisco Canindé dos Santos, falecido na noite de sábado, 31 de outubro, aos 89 anos, de morte natural, na cidade de Assú (RN). Sua partida, às vésperas da Solenidade de Todos os Santos, encerra uma longa caminhada sacerdotal marcada pela fidelidade ao Evangelho, pelo amor à Igreja e pela dedicação ao povo do Vale do Açu.
O velório aconteceu na Igreja Matriz de São João Batista, lugar onde Padre Canindé dedicou grande parte de sua vida à evangelização, celebrando a Eucaristia, administrando os sacramentos, acolhendo famílias e acompanhando gerações de fiéis.
Ao longo do domingo, foram celebradas Missas em sufrágio de sua alma. Às 16h30, o bispo diocesano, Dom Francisco de Sales, presidiu a Missa de Exéquias, reunindo sacerdotes, familiares, amigos e fiéis em um momento de oração, gratidão e despedida.
Após a celebração, o corpo foi conduzido à Capela do Instituto Padre Ibiapina (IPI), em Assú, onde aconteceu o sepultamento. O local guarda uma ligação especial com sua trajetória, sobretudo pelo trabalho desenvolvido durante décadas em favor da educação.
Uma vocação nascida no sertão potiguar
Padre Francisco Canindé dos Santos nasceu em 5 de julho de 1937, no sítio Pelo Sinal, sertão do Cabugi, zona rural de Angicos (RN). Filho de Joaquim Martins dos Santos e Cecília Monteiro dos Santos, descobriu ainda jovem o chamado de Deus ao sacerdócio.
Em 1951, ingressou no Seminário Santa Teresinha do Menino Jesus, em Mossoró. Sua formação prosseguiu em João Pessoa (PB), Fortaleza (CE) e Olinda (PE).
Foi ordenado sacerdote em 29 de junho de 1965, em Mossoró, pela imposição das mãos de Dom Gentil Diniz Barreto.
No dia 3 de janeiro de 1966, chegou a Assú para auxiliar Padre Militino Leite da Cunha na Paróquia de São João Batista. Dois anos depois, em 1968, assumiu a missão de pároco, iniciando um período de intenso trabalho pastoral que marcaria profundamente a história religiosa e social da região.
Naquela época, a Paróquia de São João Batista abrangia um extenso território, incluindo áreas que hoje correspondem aos municípios de Assú, Carnaubais e Porto do Mangue, além de parte da zona rural de Jucurutu.
Com zelo missionário, Padre Canindé acompanhou mais de cinquenta comunidades e também prestou assistência pastoral a localidades de São Rafael, Upanema e Ipanguaçu, incluindo o distrito de Pataxó.
Sua presença ultrapassava os limites físicos das igrejas. Era um sacerdote próximo das comunidades, atento às necessidades espirituais e materiais do povo.
A educação como instrumento de transformação
Uma das contribuições mais expressivas de Padre Canindé aconteceu no campo da educação.
A partir de 1967, tornou-se uma das principais referências do Instituto Padre Ibiapina (IPI), onde exerceu as funções de professor, diretor e assistente eclesiástico.
Com determinação, disciplina e espírito empreendedor, ajudou a transformar a instituição em uma referência educacional no Vale do Açu.
O Instituto chegou a reunir mais de dois mil alunos, atendendo estudantes desde a educação infantil até o equivalente ao atual ensino médio. Sua atuação beneficiou não apenas famílias de Assú, mas também estudantes de diversos municípios da região.
Padre Canindé também foi diretor do Ginásio Pedro Amorim e professor no ensino superior, na instituição hoje denominada Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).
Embora tivesse a possibilidade de seguir uma carreira acadêmica estável, preferiu preservar sua disponibilidade para a missão sacerdotal.
Para ele, educar também era evangelizar. A formação humana, intelectual e cristã constituía parte essencial de seu compromisso com a dignidade das pessoas.
Um sacerdote que compreendeu a força da comunicação
Visionário e atento aos desafios de seu tempo, Padre Canindé também deixou sua contribuição na história da comunicação regional.
Participou ativamente dos esforços para a criação, instalação e funcionamento da Rádio Princesa do Vale, em Assú.
Reconhecia no rádio um importante instrumento de evangelização, informação e aproximação com as comunidades.
Sua capacidade de comunicação fez das ondas do rádio uma extensão de sua missão pastoral, levando mensagens de fé, esperança e orientação à população do Vale do Açu.
A defesa da dignidade humana e dos mais necessitados
A atuação de Padre Canindé também foi marcada pelo compromisso com a justiça social e pela defesa das populações mais vulneráveis.
Inspirado pela Doutrina Social da Igreja, participou de importantes mobilizações em defesa das comunidades atingidas pela construção da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves.
Naquele contexto, posicionou-se em favor das famílias afetadas pelo empreendimento e dos trabalhadores ligados às atividades agropecuárias da região, buscando contribuir para a garantia de seus direitos.
Sua presença também se destacou em outras causas sociais, sempre orientada pela convicção de que a missão da Igreja não pode permanecer indiferente ao sofrimento humano.
Era um sacerdote de personalidade firme, convicções profundas e coragem para defender aquilo que considerava justo.
O cuidado com as vocações sacerdotais
Entre 1978 e 1983, período em que o Seminário Santa Teresinha, em Mossoró, estava sem funcionamento, Padre Canindé criou em Assú um Centro Vocacional.
A iniciativa contribuiu para o despertar de novas vocações sacerdotais e teve importância no processo de reabertura do seminário diocesano.
Seu compromisso com a formação de novos sacerdotes revelou também sua preocupação com o futuro da Igreja e a continuidade da missão evangelizadora.
Uma vida inteira dedicada ao povo de Deus
Após décadas à frente da Paróquia de São João Batista, Padre Canindé deixou a função de pároco em 2012, em razão de problemas de saúde.
Por provisão datada de 5 de julho daquele ano, passou a exercer a missão de colaborador pastoral.
Mesmo enfrentando limitações físicas e enfermidades, permaneceu cercado pelo carinho, respeito e reconhecimento de uma comunidade que nele encontrou, durante gerações, uma referência de fé e dedicação.
Sua caminhada sacerdotal foi marcada por desafios, incompreensões e dificuldades, mas também por uma profunda fidelidade à vocação recebida.
Homem de temperamento forte, vida austera e grande desprendimento material, Padre Canindé deixou uma frase que sintetiza sua maneira de compreender o sacerdócio.
Em determinada ocasião, diante de uma Igreja Matriz de São João Batista lotada, quando muitos aguardavam um longo pronunciamento, resumiu sua trajetória em poucas palavras:
“Nasci pobre, vivi pobre e morrerei pobre!”
A frase permanece como testemunho de uma vida que não buscou acumular riquezas materiais, mas servir a Deus e ao próximo.

A Diocese de Santa Luzia de Mossoró eleva a Deus suas preces em sufrágio de sua alma e manifesta solidariedade aos familiares, amigos e a todos que tiveram a graça de compartilhar sua caminhada.
Que o Senhor, a quem Padre Canindé dedicou sua vida, o acolha na alegria da eternidade.
E que sua memória continue viva na fé do povo, nas comunidades que acompanhou, nas gerações que ajudou a formar e nas sementes de amor e serviço que deixou ao longo do caminho.
Descanse em paz, Padre Canindé! Sua missão permanece na história e no coração do povo do Vale do Açu.
Fonte- www.paroquiasaojoaoassu.com.br
